
AnáliseSWITCH · Nintendo 64
O tempo não apaga uma lenda - The Legend of Zelda: Ocarina of Time
Num reino ameaçado pela ganância, um jovem rapaz empunha uma espada para cruzar o próprio fluxo das eras. Acompanhamos Link numa jornada sobre destino, amadurecimento e aquilo que realmente define o espírito de aventura nos jogos.
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"O tempo passa, as pessoas mudam. Como o fluxo de um rio, ele nunca para." — Sheik

The Legend of Zelda: Ocarina of Time começa nos falando sobre o tempo.
Curiosamente, passa quase três décadas provando que é imune a ele.
Existem jogos que a gente lembra só por pura nostalgia.
Outros porque realmente mudaram a indústria.
E alguns poucos que continuam servindo de base para tudo o que veio depois.
Ocarina of Time com certeza pertence a essa última prateleira.
Lançado em 1998, ele pegou a responsabilidade de levar uma das franquias mais consagradas dos videogames para o 3D sem perder sua identidade.
A resposta da Nintendo foi uma jornada sem setas gigantescas na tela, sem bússolas poluídas com centenas de marcadores no mapa e que, acima de tudo, confiava plenamente na capacidade de quem estava segurando o controle.
E quase trinta anos depois, boa parte dessas decisões continua impressionante.
Outras...
Nem tanto.
O peso do destino e a perda da inocência
Para mim, a história é simplesmente impecável.
Ela não tenta inventar moda com diálogos infinitos nem ser desnecessariamente complexa.
Ela é simples, direta e funciona com uma precisão cirúrgica do começo ao fim.
Link é um garoto sem fada na Kokiri Forest que é colocado no centro de algo infinitamente maior do que ele mesmo.
A narrativa não precisa parar o jogo a cada dez passos para explicar tudo em cutscenes cinematográficas.
Ela acontece através dos lugares que visitamos, das pessoas que encontramos pelo caminho e da maneira como o reino reage ao avanço da nossa jornada.
E o ápice dessa narrativa acontece no Temple of Time.
O momento em que Link puxa a Master Sword do pedestal e acorda sete anos no futuro é um dos maiores pontos de virada da história dos jogos.
A quebra da inocência é imediata.
Hyrule Castle Town, antes cheia de vida, música e crianças correndo, vira uma praça arruinada tomada por mortos-vivos ReDeads.
O Lake Hylia seca.
A atmosfera ganha um tom desolador.

Essa alternância entre passado e futuro não serve apenas para dar peso dramático ao roteiro.
Ela vira mecânica direta de gameplay.
Plantar uma semente mágica como Link criança para colher uma plataforma que dá acesso a um segredo como adulto faz o jogador sentir o peso das eras na pele.
Você amadurece junto com o herói.
Aprender a pensar em três dimensões
A progressão de Ocarina of Time é uma referência quando falamos em design de fases.
O jogo começa ensinando os fundamentos da exploração tridimensional no Inside the Great Deku Tree.
Mas é na fase adulta que o design das dungeons atinge outro patamar de variedade e escala.
Cada templo passa uma sensação completamente única.
O Forest Temple traz uma atmosfera labiríntica e misteriosa, com seus corredores retorcidos desafiando a nossa percepção espacial.
O Shadow Temple aposta no desconforto, flertando abertamente com um terror tenso e perturbador.
E o lendário Water Temple, com toda a manipulação do nível da água, mostra o quanto a equipe de desenvolvimento já compreendia de verticalidade e arquitetura em três eixos muito antes disso virar padrão na indústria.

Cada nova ferramenta encontrada em uma dungeon não é apenas uma chave genérica para abrir a próxima porta trancada.
Ela muda seu vocabulário mental.
Você aprende a pensar através do item.
E enxerga novas possibilidades em áreas que já havia visitado horas atrás.
Um reino que respira e canta
A primeira vez que a gente bota o pé no Campo de Hyrule e ouve aquela fanfarra de abertura, a escala do jogo bate com força total.
Kakariko Village, Lon Lon Ranch, Gerudo Valley, Zora's Domain e Death Mountain não parecem apenas pedaços isolados de polígonos.
Cada canto possui personalidade marcante, segredos escondidos e personagens com rostos e atitudes que grudam na memória, como Malon e Mido, fazendo com que Hyrule pareça um mundo genuinamente habitado.

As Grottoes (Mais conhecido como os Buracos) espalhadas pelo mapa reforçam essa sensação de descoberta orgânica.
O jogo coloca um segredo no chão e espera pacientemente que você perceba.
E amarrando tudo isso vem o trabalho histórico de Koji Kondo.
A trilha sonora não serve apenas para preencher o silêncio.
Ela dá a identidade exata de cada bioma e atua como mecânica direta nas suas mãos.
Você digita as notas musicais nos botões do controle para invocar tempestades, abrir portais e se teleportar entre os templos.
O jogador não apenas ouve a música.
Ele manipula o mundo através dela.
A mira que ensinou a indústria a lutar
Na jogabilidade, o Z-Targeting é uma sacada genial.
Pensando que foi praticamente o primeiro jogo a utilizar esse tipo de mira travada em um mundo tridimensional, ele é impecável e estava muito à frente do seu tempo.
O combate no mano a mano contra um único adversário é perfeito.
O jogo não possui dezenas de combos acrobáticos nem árvores cheias de habilidades, mas é extremamente preciso e se sustenta muito bem em diversas situações.
Atacar, esperar o momento certo, defender com o escudo e contra-atacar cria uma cadência de esgrima simples, limpa e extremamente satisfatória.

O problema real aparece quando você precisa encarar mais de um oponente ao mesmo tempo.
Mesmo que os inimigos acabem morrendo com três ou quatro golpes de espada, o combate em conjunto se torna consideravelmente mais maçante e travado.
A mira foca em um único alvo.
E os outros continuam te cercando pelos pontos cegos.
O atrito dos anos e o peso do controle
A mira no analógico original do controle do Nintendo 64 é absolutamente perfeita e muito precisa.
Porém, isso acaba pecando um pouco se você decide jogar hoje em dia utilizando um analógico mais solto, como o do GameCube ou de controles modernos.
A mira perde parte daquela sensibilidade e firmeza milimétrica de fábrica.
E tirando a questão da câmera, que exige ficar usando o botão Z/ZL a todo instante para reposicionar a visão atrás de Link, os comandos gerais do jogo respondem absurdamente bem.
O que realmente entrega a idade do jogo hoje em dia são os atritos de interface.
Ter que pausar o jogo a cada dois metros para equipar e desequipar as Iron Boots no Water Temple é um teste de paciência que quebra bastante o ritmo.
Ouvir o clássico "Hey! Listen!" da Navi interrompendo o ritmo, somado a caixas de texto com velocidade engessada, também mostra que a experiência carrega certas limitações de hardware típicas do final dos anos noventa.
Mas são arestas pequenas diante da solidez inacreditável de sua base.
Experiência Pessoal
Eu joguei Ocarina of Time pela primeira vez na minha infância, por volta dos meus 6 ou 7 anos.
Eu não entendia inglês naquela época e não tinha nenhum detonado por perto para me guiar.
Eu simplesmente não sabia muito bem o que fazer para progredir na campanha principal.
Então eu fazia o que qualquer criança curiosa faria: andava sem rumo por Hyrule.
Passava horas e horas explorando cada cantinho daquele mapa.
E ficava inventando histórias na minha própria cabeça para cada NPC existente no jogo.
Aquele mundo não precisava me dar um objetivo claro para me prender por dias inteiros.
Mais tarde, já mais velho e com bagagem em dezenas de outros jogos de gerações diferentes, eu voltei para encarar Hyrule de verdade.
E foi aí que a ficha caiu imediatamente.
Eu entendi na hora por que este jogo sempre foi considerado uma obra perfeita.
Todas as mecânicas que ele introduziu de forma pioneira.
As músicas inesquecíveis que grudam na alma.
A atmosfera viva e imersiva.
É exatamente por isso que, mesmo depois de tantos anos, eu faço questão de rejogar essa maravilha religiosamente todos os anos.
Veredito do Texugo
The Legend of Zelda: Ocarina of Time não é um jogo perfeito em suas interfaces ou no combate contra múltiplos inimigos.
Mas seu núcleo continua monumental.
O Z-Targeting pioneiro.
O combate individual cirúrgico.
O level design brilhante de suas dungeons.
A magistral alternância entre infância e maturidade.
E aquele poder quase mágico de fazer uma criança de 7 anos sonhar diante da tela mesmo sem entender uma linha de texto.
Tudo isso prova que boas ideias não envelhecem.
Quase trinta anos depois, ele não é apenas uma relíquia histórica da transição para o 3D.
Ele continua sendo uma verdadeira aula de videogame.

Veredito
Obra-prima
The Legend of Zelda: Ocarina of Time continua a ser um dos maiores marcos da história dos videojogos. Unindo uma narrativa impecável, exploração genuína, desenho de níveis primoroso e uma banda sonora lendária que funciona como mecânica interativa, as suas limitações de câmara e menus pouco importam perante uma jornada que permanece inesquecível e obrigatória.
Pontos positivos
- História impecável e marcante.
- Z-Targeting pioneiro.
- Combate individual cirúrgico.
- Desenho de níveis e variedade dos templos.
- Trilha sonora interativa.
- Sensação pura de descoberta.
Pontos negativos
- Combate contra grupos de inimigos.
- Câmera dependente do botão Z.
- Atrito constante nos menus.
- Ritmo das caixas de texto e interrupções.
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